Google e Marvell: acordo por TPUs customizadas pode movimentar US$ 120 bilhões
Parceria para semicondutores customizados visa garantir a produção de TPUs em escala, diversificar fornecedores e preparar a expansão comercial dos aceleradores do Google.

Um acordo entre Google e Marvell Technology sinaliza uma aposta que pode chegar a US$ 120 bilhões em infraestrutura de inteligência artificial. O valor não representa uma encomenda direta, mas sim a receita que a Marvell precisaria gerar com a venda de chips customizados para o Google até 2033 para que a big tech exerça a totalidade do direito de compra de ações da fabricante de semicondutores. A parceria amplia o desenvolvimento e fornecimento das Tensor Processing Units (TPUs), os processadores de IA do Google, e revela a escala dos investimentos necessários para sustentar a demanda por capacidade computacional.
O mecanismo do acordo, detalhado em documento enviado à SEC, envolve a concessão de direitos de compra (warrants) de até 58,97 milhões de ações da Marvell a um preço fixo de US$ 206,58 por papel, o que totaliza um valor potencial de US$ 12,2 bilhões. A maior parte desses direitos, no entanto, está atrelada à performance: para cada US$ 500 milhões em receita que a Marvell obtiver com produtos customizados para o Google, uma das 240 parcelas de ações é liberada. A conta para a liberação total resulta na cifra de US$ 120 bilhões em encomendas ao longo de nove anos.
A estratégia de diversificação de suprimentos
A entrada da Marvell como parceira estratégica não significa uma substituição, mas uma ampliação da base de fornecedores do Google. A companhia já mantém um acordo de longo prazo com a Broadcom, concorrente da Marvell, para o desenvolvimento e fornecimento de futuras gerações de TPUs, com vigência até 2031. Ao adicionar a Marvell, o Google mitiga os riscos de depender de um único fornecedor para um componente crítico de sua infraestrutura.
A estratégia de 'dual-sourcing' é comum em cadeias de suprimentos de alto volume para evitar gargalos de produção e obter maior poder de negociação. Em um mercado de semicondutores onde a demanda por aceleradores de IA supera a oferta, garantir capacidade de fabricação com múltiplos parceiros é fundamental. A reação do mercado ao anúncio foi imediata: as ações da Marvell subiram quase 8%, enquanto as da Broadcom recuaram cerca de 4%, indicando a percepção dos investidores sobre a nova dinâmica de fornecimento para o Google.
A escala do investimento em IA
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O potencial de US$ 120 bilhões do acordo com a Marvell deve ser visto no contexto dos investimentos de capital (Capex) da Alphabet, controladora do Google. A empresa elevou sua previsão de Capex para 2026 para uma faixa entre US$ 195 bilhões e US$ 205 bilhões, com a maior parte destinada à infraestrutura técnica para IA. Apenas no segundo trimestre de 2026, foram US$ 44,9 bilhões investidos, e a companhia já sinalizou que os aportes devem crescer significativamente em 2027.
Esses números mostram que o custo para se manter competitivo na corrida da IA é massivo. A parceria com a Marvell abrange uma série de componentes essenciais para os data centers do Google, incluindo:
- Aceleradores de inferência de IA
- Controladores de armazenamento
- Controladores de interface de rede
- Controladores de memória
- Soluções de computação próxima à memória (near-memory compute)
TPUs: de ativo interno a produto de mercado
O movimento para escalar a produção de TPUs ocorre em um momento de mudança estratégica para o Google. Criados inicialmente para otimizar as cargas de trabalho internas da própria empresa, como a busca e a tradução, os processadores agora estão sendo comercializados para clientes externos. No segundo trimestre de 2026, o Google reconheceu pela primeira vez receitas provenientes da venda de sistemas com TPUs instalados nos data centers de clientes.
Essa transição de um ativo interno para uma oferta comercial explica a necessidade de garantir uma cadeia de suprimentos robusta e diversificada. Ao oferecer suas TPUs a terceiros, o Google não apenas cria uma nova linha de receita, mas também amplia a competição no mercado de aceleradores de IA, hoje dominado pelas GPUs da Nvidia. Chips customizados como as TPUs, também conhecidos como ASICs (Application-Specific Integrated Circuits), podem oferecer vantagens de custo e eficiência para tarefas específicas de IA, representando uma alternativa atraente para empresas que buscam otimizar suas operações.
Análise IA News
A leitura da nossa redação
Por: Redação IA News
O acordo entre Google e Marvell é um estudo de caso sobre a economia da infraestrutura de IA em hiperescala. A estrutura baseada em warrants atrelados a metas de receita é um mecanismo sofisticado de alinhamento estratégico. Para o Google, é uma forma de garantir comprometimento de longo prazo e capacidade de produção sem um desembolso inicial massivo, ao mesmo tempo em que se beneficia de um potencial ganho financeiro como acionista caso a parceria seja bem-sucedida. Para a Marvell, o acordo garante um fluxo de receita previsível de um cliente de ponta, justificando os investimentos em P&D e capacidade de produção necessários para atender à demanda.
A decisão de diversificar fornecedores de TPUs, trazendo a Marvell para somar à Broadcom, é uma manobra defensiva e ofensiva. Defensivamente, protege o Google contra disrupções na cadeia de suprimentos, um risco real em um setor com longos ciclos de fabricação e alta demanda. Ofensivamente, fomenta a competição entre seus próprios fornecedores, o que pode levar a inovações mais rápidas e melhores condições comerciais. Essa estratégia é essencial para viabilizar o plano de transformar as TPUs em um produto de mercado competitivo.
A ambição de vender sistemas de TPU para clientes externos posiciona o Google em um curso de colisão mais direto com a Nvidia. Enquanto as GPUs são aceleradores de propósito geral que dominam o treinamento de modelos, os ASICs como as TPUs podem ser mais eficientes para a inferência, a etapa de execução dos modelos. Ao escalar a produção e a oferta, o Google aposta que uma parcela significativa do mercado buscará soluções de hardware especializadas para otimizar custos e performance, corroendo parte do domínio da Nvidia. Este é um jogo de longo prazo sobre a arquitetura da computação de IA.
Nos próximos meses, será crucial observar a execução da Marvell e os relatórios de receita provenientes de clientes de data centers, onde o Google se encaixa. Também é importante monitorar os anúncios do Google Cloud sobre a disponibilidade, o preço e a performance de suas novas gerações de TPUs para o mercado externo. A reação da Nvidia, seja em preços, inovação de produtos ou parcerias estratégicas, definirá o próximo capítulo da competição por hardware de IA.
Contexto para empresários e decisores
No mercado brasileiro, a competição entre provedores de nuvem como Google Cloud, AWS e Azure é intensa. O alto custo de hardware especializado, principalmente GPUs, é uma das principais barreiras para a adoção de IA em larga escala por empresas locais. A oferta de alternativas como as TPUs pelo Google pode ser um diferencial competitivo importante, atraindo clientes que buscam otimizar a relação custo-benefício de suas cargas de trabalho de IA. Embora a maturidade na adoção de hardware customizado ainda seja baixa no Brasil, a disponibilidade via nuvem elimina a necessidade de investimento direto em infraestrutura, acelerando o acesso à tecnologia. A regulação sobre soberania de dados não impacta diretamente a escolha do chip, mas sim a localização do data center do provedor de nuvem.
Impactos para empresas
- 1Aumento da oferta de aceleradores de IA customizados: gera uma alternativa viável às GPUs da Nvidia, o que pode levar à redução de custos e melhoria de performance para cargas de trabalho específicas, como inferência.
- 2Diversificação de fornecedores de hardware de nuvem: resulta em menor risco de interrupção do serviço para empresas que dependem de infraestrutura de IA e maior poder de negociação para os provedores de nuvem.
- 3Intensificação da competição no mercado de cloud: força os provedores a se diferenciarem não apenas por software, mas também por hardware, oferecendo aos clientes corporativos arquiteturas mais otimizadas e com melhor custo-benefício.
- 4Elevação da barreira de entrada para infraestrutura de IA: os investimentos multibilionários em P&D e fabricação de chips consolidam o poder das Big Techs, tornando mais difícil para novos players competirem no nível de infraestrutura.
Conclusão editorial
O acordo Google-Marvell não é apenas sobre a fabricação de chips; é uma peça central na estratégia do Google para dominar a próxima década da computação de IA. A verticalização de hardware e a diversificação de suprimentos são imperativos para competir em hiperescala. Decisores devem reavaliar a dependência de uma única arquitetura de hardware e começar a testar as soluções de silício customizado que os provedores de nuvem estão trazendo ao mercado.
— Redação IA News
Fontes utilizadas
Apuração, análise e conclusão editorial produzidas pela redação do IA News a partir das fontes acima. O conteúdo não reproduz o texto original.
