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Necromancia Digital: Brasil avança na regulamentação de IA para proteger direitos de imagem e voz

O uso de inteligência artificial para recriar imagem e voz, dos 'deepfakes' publicitários à dublagem, desafia a legislação atual. Enquanto o mercado avança, o Congresso Brasileiro e o CONAR debatem quem autoriza, como remunerar e os limites éticos e legais, moldando um cenário complexo para empresas

Por Análise IA NewsAnálise própria IA News03 de agosto de 20267 min de leitura
Necromancia Digital: Brasil avança na regulamentação de IA para proteger direitos de imagem e voz
Foto: Exame

O cenário da inteligência artificial generativa no Brasil está em ebulição, com o avanço da capacidade de replicar digitalmente vozes e imagens humanas, os chamados 'deepfakes'. Essa tecnologia, que permite a recriação convincente de personalidades, sejam elas falecidas ou vivas, está impulsionando um debate regulatório urgente que impacta diretamente a publicidade, o entretenimento e até mesmo o treinamento corporativo. O caso emblemático do comercial de uma montadora em 2023, que trouxe Elis Regina de volta para um dueto com sua filha Maria Rita, expôs as lacunas jurídicas e éticas existentes no país.

O Precedente de Elis Regina e a Necromancia Digital

A peça publicitária, criada pela AlmapBBDO para a Volkswagen, utilizou um modelo de inteligência artificial treinado com vasto material de áudio e vídeo da artista falecida para sobrepor seu rosto ao de uma dublê. Embora a família de Elis Regina tenha concedido autorização, o episódio gerou um intenso debate público e levou o Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária (CONAR) a abrir uma representação ética. O CONAR, ao final, arquivou o caso, mas aprovou uma moção para acompanhar de perto o uso de IA em campanhas. Essa decisão marcou o primeiro posicionamento formal no Brasil sobre o uso comercial da imagem de pessoas falecidas recriadas por IA, levantando mais questionamentos do que respostas sobre os limites do que acadêmicos já denominam 'necromancia digital'.

A questão central reside na validade do consentimento. Uma pessoa falecida não pode consentir com o uso de sua imagem em contextos que nunca vivenciou. O Projeto de Lei 3592/23 busca preencher essa lacuna, propondo que a autorização explícita em vida seja a única forma de permitir tal uso. Na ausência de tal permissão, a utilização de imagem e voz pós-morte seria proibida. Este movimento legislativo reflete uma preocupação crescente, inclusive entre artistas globais como Madonna, que já se posicionou publicamente contra a recriação digital de sua imagem após sua morte.

Dublagem: O Epicentro da Disputa por Direitos de Voz

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Contexto visual da matéria: Necromancia Digital: Brasil avança na regulamentação de IA para proteger direitos de imagem e voz
O uso de inteligência artificial para recriar imagem e voz, dos 'deepfakes' publicitários à dublagem, desafia a legislação atual. Enquanto o mercado avança, o Congresso Brasileiro e o CONAR debatem quem autoriza, como remunerar e os limites éticos e legais, moldando um cenário complexo para empresas · Imagem ilustrativa — IA News

Se na publicidade o foco recai sobre os direitos póstumos de imagem, na indústria da dublagem a discussão é ainda mais premente e diz respeito diretamente aos profissionais vivos. O Brasil, um dos maiores mercados de dublagem do mundo, vê seus profissionais ameaçados pela automação e pela geração sintética de voz. Em resposta a essa iminente transformação, o Projeto de Lei 4041/2025 está em tramitação na Câmara dos Deputados, propondo regras específicas para o uso da IA no setor.

Entre as principais propostas do PL, destacam-se:

  • Vedação à cessão integral: Proíbe a entrega de voz, imagem ou dados biométricos de dubladores para modelos de IA que visem substituir completamente o trabalho humano.
  • Supervisão humana: Permite o uso de IA apenas para ajustes técnicos, sempre sob supervisão e controle de profissionais humanos.
  • Consentimento específico e remunerado: Exige consentimento explícito e remuneração específica para a criação de vozes sintéticas baseadas na voz de um dublador, proibindo autorizações genéricas.
  • Reconhecimento como dado pessoal sensível: Altera a Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD) para incluir a voz como dado pessoal sensível.
  • Proteção de direitos conexos: Reconhece e estende a proteção de direitos conexos de voz e interpretação aos descendentes por 70 anos.
  • Incentivo à produção nacional: Obriga que obras estrangeiras exibidas no Brasil sejam dubladas por profissionais e empresas nacionais, com incentivos fiscais para tal.

Essas medidas posicionam o Brasil entre os países que buscam liderar a regulamentação do setor. Dubladores brasileiros são membros ativos da United Voice Artists, uma coalizão internacional que discute ativamente a regulamentação da IA na voz.

O Precedente Internacional e a Lacuna Brasileira

Nos Estados Unidos, o sindicato SAG-AFTRA já estabeleceu um precedente significativo. Contratos ratificados para dubladores de animação televisiva incluem cláusulas que exigem o consentimento expresso do ator antes que seu nome seja usado para gerar voz por IA, definem direitos sobre réplicas digitais e obrigam negociação sindical para o uso de voz sintética. Uma definição crucial desses acordos é que o termo 'dublador' é reservado exclusivamente para seres humanos, diferenciando-o claramente de criações de IA.

No Brasil, a ausência de um marco legal claro para licenciar voz ou imagem para uso sintético cria um vácuo. Não há tabelas de remuneração, diretrizes sobre a duração das autorizações, cobertura para projetos futuros, revogabilidade ou herança desses direitos. Essa indefinição persiste enquanto o mercado avança, com empresas utilizando avatares sintéticos para treinamento e comunicação interna, e agências oferecendo recriação de personalidades para campanhas publicitárias. A pergunta sobre 'quanto vale o direito de usar o rosto de alguém depois que essa pessoa não precisa mais estar presente para trabalhar' permanece sem resposta legal, destacando a urgência de uma regulamentação robusta e adaptada à era da inteligência artificial.

Análise IA News

A leitura da nossa redação

O avanço da inteligência artificial generativa para a criação de 'deepfakes' coloca o Brasil em uma encruzilhada regulatória. A discussão vai muito além da ética publicitária, adentrando os domínios do direito de imagem, voz, propriedade intelectual e até mesmo a dignidade da pessoa humana pós-morte. A iniciativa do Projeto de Lei 3592/23, que busca exigir consentimento expresso em vida para o uso de imagem após a morte, é um passo fundamental para evitar a exploração indevida e a 'necromancia digital', garantindo autonomia e respeito à memória dos indivíduos.

No setor de dublagem, a urgência é ainda maior, refletindo um movimento global de proteção do trabalho humano frente à automação. O PL 4041/2025 demonstra uma compreensão aprofundada dos riscos, propondo salvaguardas que buscam proteger os dubladores, remunerar adequadamente o uso de suas características vocais para treinamento de IAs e, crucialmente, manter a supervisão humana. A inclusão da voz como dado pessoal sensível na LGPD é um avanço significativo, elevando o patamar de proteção e exigindo maior rigor no tratamento desses dados.

Nos próximos meses, espera-se uma intensificação dos debates no Congresso. A aprovação dessas legislações criará um ambiente mais seguro e transparente para o desenvolvimento e aplicação da IA generativa no Brasil. As empresas precisarão se adaptar rapidamente, desenvolvendo políticas internas rigorosas para o uso de IA, garantindo consentimento informado e remuneração justa. O desafio será encontrar um equilíbrio entre a inovação tecnológica e a proteção dos direitos individuais e profissionais, evitando que a lacuna regulatória atual se transforme em um paraíso para práticas predatórias.

Contexto para empresários e decisores

Para empresários e decisores brasileiros, o cenário da inteligência artificial generativa, especialmente no que tange à replicação de imagem e voz, representa tanto uma oportunidade de inovação quanto um risco regulatório. O mercado local, com seu vasto talento criativo e a rápida adoção de tecnologias, precisa de clareza nas regras de engajamento para evitar litígios e danos à reputação. A discussão sobre direitos autorais, consentimento e remuneração justa não é apenas uma pauta ética, mas um fator que impactará diretamente o custo de campanhas publicitárias, produções de entretenimento e até mesmo a eficácia de treinamentos corporativos baseados em avatares de IA, posicionando o Brasil como um player ativo na construção dessas fronteiras globais.

Impactos para empresas

  • 1Custo de produção: A exigência de consentimento específico e remuneração para uso de voz/imagem por IA pode aumentar significativamente os custos de campanhas publicitárias e produções audiovisuais.
  • 2Risco legal e de reputação: A ausência de regras claras ou o descumprimento das futuras leis pode levar a processos judiciais, multas e danos irreparáveis à imagem da empresa.
  • 3Estratégia de marketing: Empresas precisarão reavaliar suas estratégias de marketing e comunicação, buscando soluções de IA que estejam em conformidade com as novas diretrizes éticas e legais.
  • 4Gestão de talentos: A regulamentação do uso de IA na dublagem, por exemplo, impactará a relação com talentos, exigindo contratos mais detalhados e acordos de remuneração para uso de réplicas digitais.
  • 5Oportunidades de inovação: As empresas que se anteciparem e desenvolverem soluções de IA éticas e transparentes podem ganhar vantagem competitiva, atraindo talentos e consumidores que valorizam a responsabilidade tecnológica.

Conclusão editorial

O Brasil está diante de um momento decisivo para regulamentar a inteligência artificial, especialmente no que diz respeito aos 'deepfakes' e à proteção de imagem e voz. É imperativo que legisladores avancem com celeridade e robustez, garantindo um equilíbrio entre a inovação tecnológica e a salvaguarda dos direitos individuais e do trabalho humano. Empresas e profissionais devem acompanhar de perto e se preparar para um cenário de maiores exigências éticas e legais.

— Redação IA News

Fontes utilizadas

Apuração, análise e conclusão editorial produzidas pela redação do IA News a partir das fontes acima. O conteúdo não reproduz o texto original.